Ambiente cultural e folclore da praça Jemaa el-Fna, onde circulam os vendedores de água (guerrab) de roupa vermelha

Cultura e história

Os vendedores de água (guerrab) da Jemaa el-Fna: o ícone vermelho do Marrocos

O guerrab, vendedor de água de roupa vermelha da Jemaa el-Fna: sua história, o odre de pele, as taças de cobre e como fotografá-lo (preço e regras).

Atualizado em 10 de agosto de 2026

O vendedor de água, chamado guerrab (ou guerrba) no Marrocos, é aquela silhueta escarlate impossível de não notar na praça Jemaa el-Fna: um homem vestido de vermelho vivo, com um largo chapéu de pompons multicoloridos, carregando um odre de pele de cabra e fazendo tilintar as taças de cobre penduradas no peito. Ele toca um sininho, sorri, posa para a câmera. É uma das imagens mais reproduzidas do folclore marroquino, um verdadeiro cartão-postal vivo de Marrakech (Marraquexe).

Mas, por trás da roupa exuberante, esconde-se um ofício outrora vital. Durante séculos, antes da água encanada, o guerrab matou a sede de quem passava, dos comerciantes dos souks e dos moradores, transportando a água dos poços no odre e servindo-a fresca nas suas taças de metal. Hoje, a sua função mudou completamente: ele quase não vende mais água, vende a sua imagem. Tornou-se um guardião da memória, um símbolo que se fotografa em troca de alguns dirhams.

Este guia conta a história do guerrab, explica cada peça da sua roupa lendária, mostra o seu papel no passado e no presente e diz como fotografá-lo corretamente, respeitando o homem e a tradição.

A praça Jemaa el-Fna durante o dia, palco onde os vendedores de água de vermelho convivem com contadores de histórias, músicos e comerciantes

O que é um guerrab, o vendedor de água do Marrocos?

O guerrab é um carregador e vendedor de água ambulante, figura tradicional das cidades marroquinas, e em especial de Marrakech. A palavra vem do árabe guerba (ou guirba), que designa o seu odre de pele: o homem é, literalmente, “o do odre”. Também é chamado de aguadeiro ou carregador de água, uma profissão que se encontra, sob outras formas, em muitas culturas antigas do Mediterrâneo e do mundo árabe.

A sua missão original era simples e essencial: levar água potável e fresca aonde ela não era fácil de encontrar. Numa cidade quente como Marrakech, onde a água encanada chegou tardiamente, o guerrab era uma peça indispensável da vida cotidiana. Ele tirava a água, transportava-a nas costas e distribuía-a ao longo das suas andanças pelas vielas e praças.

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Em resumo: o guerrab é o vendedor de água tradicional marroquino, reconhecível pela roupa vermelha, pelo odre de pele e pelas taças de cobre. Antigamente matava a sede de quem passava; hoje vive sobretudo da fotografia turística.

Uma história antiga: do serviço vital ao ícone turístico

O ofício de carregador de água é muito antigo no Marrocos. Durante gerações, o guerrab percorreu os souks e as praças levando a sua energia, o seu bom humor e a sua água refrescante para o bem-estar de quem passava e dos comerciantes. Era um dos pilares da vida urbana: sem ele, não havia água de fácil acesso no coração da medina.

Tudo mudou com a chegada da água encanada e, depois, da água engarrafada. Os hábitos mudaram: já não se dependia de um homem e do seu odre para beber. Aos poucos, a função utilitária do guerrab desapareceu. O ofício poderia ter se extinguido por completo… mas se reinventou.

De serviço público indispensável, o guerrab tornou-se um personagem do patrimônio vivo. Na Jemaa el-Fna, ele faz parte hoje do cenário, assim como os contadores de histórias, os músicos e os acrobatas que fazem a riqueza da praça. Esta praça, inscrita pela UNESCO no patrimônio cultural imaterial da humanidade, deve parte da sua alma a essas figuras tradicionais que perpetuam gestos de outros tempos. Para entender como este lugar único atravessou os séculos, a nossa história da Jemaa el-Fna recoloca o guerrab na grande narrativa da praça.

A roupa vermelha: o significado de um traje lendário

Se o guerrab é tão fotografado, é antes de tudo graças à sua roupa vermelha, uma das mais espetaculares do folclore marroquino. Nada nela é por acaso: cada elemento tem uma função, prática ou simbólica.

  • O traje vermelho vivo: a cor, vibrante, é vista de muito longe na multidão e entre as bancas. Simboliza a vitalidade e tornava o guerrab imediatamente identificável para quem tinha sede. Foi ela que fez dele um ícone visual.
  • O grande chapéu (a tarazza): um chapéu largo e colorido, muitas vezes enfeitado com pompons e franjas multicoloridas. Protege do sol e coroa a silhueta com um toque festivo.
  • O odre de pele (a guerba): o coração do ofício. Trata-se de uma pele de cabra ou de bode costurada e impermeabilizada, levada a tiracolo, na qual a água se mantém fresca. Muitas vezes é decorado com moedas antigas e sininhos.
  • As taças de cobre (ou de latão): penduradas em cacho no peito, essas tacinhas de metal brilhante serviam para dar de beber aos clientes. O seu tilintar faz parte do anúncio sonoro do guerrab.
  • O sininho: o guerrab o faz tocar para anunciar a sua passagem. Antigamente, esse som anunciava “a água chegou”; hoje, atrai o olhar e os ouvidos do visitante.

Multidão densa na praça ao pé da Koutoubia, onde o tilintar dos sininhos dos guerrabs se mistura à animação

O conjunto — o vermelho, o chapéu, o odre carregado de moedas, as taças que se chocam — compõe uma figura teatral, sonora e colorida, perfeitamente adaptada ao clima de espetáculo permanente que reina na praça.

O guerrab hoje: a foto em vez da sede

É preciso dizer com clareza: hoje, o guerrab já não vive da água que vende, mas das fotos que tiram dele. Com a água engarrafada disponível em toda parte e a preço baixo, quase ninguém bebe mais do seu odre. A sua presença na Jemaa el-Fna tornou-se acima de tudo cultural e turística.

Na prática, os guerrabs passam os dias circulando, tocando o sininho e posando para as câmeras dos visitantes, em troca de alguns dirhams. Essa reconversão permite que continuem presentes na paisagem tradicional da cidade e que mantenham vivo, mesmo de forma cristalizada, um ofício que de outro modo teria desaparecido.

Essa mudança levanta uma questão agridoce: o guerrab ainda é um vendedor de água, ou uma encenação de vendedor de água? Provavelmente as duas coisas. Ele encarna uma memória, um saber-fazer na arte de vestir e uma arte da presença. Ao fotografá-lo e remunerá-lo, o visitante contribui, à sua maneira, para a sobrevivência dessa figura do folclore marroquino.

Como fotografar um vendedor de água: as regras que você precisa conhecer

Este é o ponto mais importante para qualquer viajante. Na Jemaa el-Fna, fotografar um guerrab é pago, e isso é perfeitamente legítimo: é o seu ganha-pão. Ignorar essa regra cria tensões desnecessárias. Veja como agir corretamente e voltar com belas imagens, de consciência tranquila.

  • Combine o preço ANTES de fotografar. Nunca aperte o botão sem ter esclarecido o valor. Alguns dirhams (cerca de 10 a 20 MAD, a título de referência) geralmente bastam para uma ou duas fotos.
  • Tenha dinheiro trocado à mão. Tirar uma nota grande faz o pedido subir e complica a transação. Separe as suas moedas com antecedência.
  • Um sorriso e um “salam” abrem todas as portas. O contato humano, a educação e um pouco de humor valem mais do que uma foto roubada. Os guerrabs estão acostumados e entram no jogo de bom grado.
  • Não “roube” a foto com teleobjetiva. Achar que está sendo discreto é uma ilusão: isso costuma ser percebido e muito mal visto. É melhor pedir abertamente.
  • Respeite uma recusa ou um preço que você considere alto demais. Se o valor não lhe convier, recuse educadamente e siga o seu caminho, sem insistir nem pechinchar de forma agressiva.
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O reflexo esperto: alguns guerrabs entregam uma taça ou colocam o chapéu na sua cabeça “para a foto” e depois cobram um valor alto. Combine o preço e o número de fotos antes de qualquer contato e mantenha a câmera nas suas mãos. Para evitar todas as outras armadilhas da praça, leia o nosso guia segurança e golpes na Jemaa el-Fna.

Rodas de espectadores (halqa) na praça ao entardecer, um dos melhores momentos para encontrar as figuras folclóricas

Para se aprofundar nas configurações, nos melhores horários e na ética da fotografia, o nosso artigo dedicado a fotografar a Jemaa el-Fna reúne todas as dicas, do smartphone à câmera reflex.

Um símbolo do folclore e do patrimônio marroquino

Para além da curiosidade turística, o guerrab é um símbolo forte da identidade marroquina. Aparece em inúmeros cartões-postais, cartazes, selos e anúncios, a ponto de ter se tornado uma imagem clássica do Marrocos tradicional, ao lado do chá de hortelã e dos tapetes. A sua silhueta vermelha, por si só, diz “Marrakech”.

Ele encarna também um valor antigo e precioso: a oferta da água, gesto de hospitalidade por excelência numa cultura em que oferecer de beber é um ato sagrado de generosidade. O guerrab de antigamente não era apenas um comerciante: levava frescor, bom humor e laços sociais ao coração da cidade. A profissão de carregador de água, com uma longa história, está aliás documentada em muitas culturas, como lembra o artigo da Wikipédia sobre o aguadeiro.

Cruzar com um guerrab na Jemaa el-Fna é, portanto, encontrar uma ponte entre dois mundos: aquele em que a água era carregada nas costas e o nosso, em que ela sai da torneira. Uma ponte frágil, sustentada por alguns homens de vermelho que, todos os dias, ainda fazem tocar o seu sininho sob o sol de Marrakech.

Perguntas frequentes

O que é um guerrab em Marrakech?

O guerrab é o vendedor de água tradicional marroquino, figura emblemática da praça Jemaa el-Fna. Vestido com uma roupa vermelho vivo, com um grande chapéu de pompons (a tarazza), carregando um odre de pele de cabra e taças de cobre, ele antigamente matava a sede de quem passava. Hoje, vive sobretudo da fotografia turística. O seu nome vem do árabe guerba, o odre.

Por que o vendedor de água usa roupa vermelha?

O vermelho vivo permitia localizar o guerrab de muito longe na multidão dos souks e da praça, quando alguém tinha sede. A cor simboliza também a vitalidade. Associada ao grande chapéu colorido, ao odre decorado com moedas e às taças de metal brilhante, fez do guerrab uma das figuras mais reconhecíveis e fotografadas do folclore marroquino.

É preciso pagar para fotografar um guerrab?

Sim. Na Jemaa el-Fna, fotografar um vendedor de água é pago, e isso é legítimo: hoje é o seu principal ganha-pão. Combine sempre o preço antes de fotografar (alguns dirhams, de 10 a 20 MAD a título de referência, costumam bastar) e tenha dinheiro trocado à mão. Nunca tire fotos escondido: isso é mal visto e gera tensões.

Os guerrabs ainda vendem água?

Muito pouco. Com a água encanada e a água engarrafada disponíveis em toda parte, a função utilitária do guerrab praticamente desapareceu. Alguns ainda servem uma taça de vez em quando, mas o essencial da sua atividade é hoje cultural e turístico: eles perpetuam a tradição e posam para as fotos dos visitantes.

O que contém o odre do guerrab?

O odre, chamado guerba em árabe, é uma pele de cabra ou de bode costurada e impermeabilizada, que deu nome ao ofício. Serve para manter a água fresca e é levado a tiracolo. Muitas vezes é decorado com moedas antigas e sininhos que tilintam ao ritmo dos passos do carregador.