O espaço cultural da praça Jemaa el-Fna, obra-prima do patrimônio imaterial da UNESCO

Cultura e história

Jemaa el-Fna e a UNESCO: o patrimônio imaterial explicado

Jemaa el-Fna e a UNESCO: proclamação de 2001, inscrição de 2008, diferença entre patrimônio material e imaterial, papel de Juan Goytisolo e o que é protegido.

Atualizado em 6 de agosto de 2026

A praça Jemaa el-Fna foi proclamada pela UNESCO em 2001 “obra-prima do patrimônio oral e imaterial da humanidade” e depois inscrita em 2008 na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Fato raro: não é a praça enquanto lugar que é reconhecida, mas o que acontece nela todos os dias — os contadores de histórias, os músicos, os círculos de espectadores, os saberes transmitidos de boca em boca. A Jemaa el-Fna, aliás, foi o primeiro lugar do mundo a receber esse título inaugural.

Essa distinção é essencial para entender por que a praça é protegida e, sobretudo, contra o quê ela é protegida. Aqui, o tesouro não é um monumento de pedra: é uma cultura viva, frágil, carregada por mulheres e homens. Um contador de histórias que se cala é uma biblioteca que se queima — e foi exatamente isso que a UNESCO quis evitar ao reconhecer o espírito da praça, e não o seu calçamento.

Neste guia didático, explicamos de forma simples o que é o patrimônio imaterial, em que ele difere do patrimônio “clássico”, o papel decisivo do escritor Juan Goytisolo, o que é concretamente protegido e as ameaças que ainda pesam sobre este lugar único no mundo.

O espaço cultural da praça Jemaa el-Fna reconhecido pela UNESCO

Patrimônio material ou imaterial: qual a diferença?

Essa é a chave para entender tudo. As convenções da UNESCO distinguem duas grandes famílias de patrimônio.

  • O patrimônio material reúne os bens físicos e tangíveis: monumentos, sítios arqueológicos, conjuntos urbanos, paisagens. Em Marrakech (Marraquexe), a medina, a Koutoubia ou os Túmulos Saadianos pertencem a essa categoria (a medina de Marrakech, aliás, é Patrimônio Mundial desde 1985).
  • O patrimônio cultural imaterial reúne aquilo que não se pode tocar: as tradições orais, as artes do espetáculo, as práticas sociais, os rituais, as festas, os saberes artesanais. São os costumes vivos transmitidos de geração em geração.
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Para memorizar de forma simples: o patrimônio material é o cenário (as paredes, as pedras); o patrimônio imaterial é o espetáculo (o que as pessoas fazem, dizem, tocam e transmitem). A Jemaa el-Fna é protegida pelo seu espetáculo, não pelo seu cenário.

A grande particularidade do patrimônio imaterial é ser vivo e frágil. Um templo abandonado continua de pé por séculos; uma tradição oral, por sua vez, morre com o último contador que a conhece. Daí a urgência, para a UNESCO, de reconhecê-la, documentá-la e incentivar a sua transmissão.

O que é patrimônio imaterial segundo a UNESCO?

O conceito foi formalizado pela Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial, adotada em 2003. Segundo esse texto, o patrimônio imaterial designa “as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas” que as comunidades reconhecem como parte do seu legado cultural.

A UNESCO identifica cinco grandes domínios:

DomínioExemplos
Tradições e expressões oraisContos, epopeias, poesia, língua
Artes do espetáculoMúsica, dança, teatro de rua
Práticas sociais, rituais e festasCerimônias, jogos, costumes coletivos
Conhecimentos ligados à naturezaMedicina tradicional, fitoterapia com ervas
Saberes artesanaisTatuagem de hena, artesanato, ofícios

Na Jemaa el-Fna, esses cinco domínios coexistem em algumas centenas de metros quadrados, todas as noites. Foi essa concentração excepcional que impressionou os especialistas e justificou o reconhecimento.

Por que a Jemaa el-Fna foi reconhecida já em 2001?

Em 1997, a UNESCO lançava um novo programa: a Proclamação das Obras-Primas do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade. A primeira lista, divulgada em 18 de maio de 2001, contava dezenove lugares do mundo inteiro. A Jemaa el-Fna fazia parte dela — e é frequentemente citada como o elemento fundador que inspirou esse programa.

Por que ela? Porque a praça encarna à perfeição a ideia de patrimônio imaterial. Todas as tardes, um espaço vazio se transforma em teatro a céu aberto: as halqa (círculos de público) se formam em torno dos contadores de histórias, os tambores dos gnaoua ressoam, os ervanários alinham seus frascos. Nada é fixo, tudo é recriado a cada dia pela simples vontade dos artistas e do público. É uma tradição que só existe porque é encenada, ouvida e transmitida ao vivo.

Círculo de espectadores em torno de um contador de histórias na praça Jemaa el-Fna

Quando a Convenção de 2003 entrou em vigor e criou a Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, as obras-primas proclamadas entre 2001 e 2005 foram incorporadas a ela. Foi assim que a Jemaa el-Fna foi oficialmente inscrita nessa lista em 2008, confirmando e tornando permanente o reconhecimento inicial.

O papel decisivo de Juan Goytisolo

Não é possível contar essa história sem citar Juan Goytisolo (1931-2017), escritor espanhol apaixonado por Marrakech, onde viveu por muito tempo. Fascinado pela praça e por seus contadores de histórias, ele foi o seu defensor mais obstinado.

No fim dos anos 1990, um projeto imobiliário ameaçava os arredores da praça — falava-se, entre outras coisas, em erguer uma torre de vidro e modernizar a esplanada, com o risco de expulsar os artistas. Goytisolo fez campanha, mobilizou intelectuais e instituições e levou à UNESCO a ideia de uma proteção internacional da cultura oral da Jemaa el-Fna. Sua defesa foi um dos estopins diretos da proclamação de 2001.

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Goytisolo gostava de lembrar que o que era preciso salvar não era a praça em si — indestrutível —, mas a palavra dos contadores de histórias, uma tradição oral milenar que, essa sim, podia desaparecer para sempre se ninguém agisse.

Graças a ele, a Jemaa el-Fna se tornou um caso exemplar: a prova de que um patrimônio invisível, feito de palavras e gestos, merece tanta proteção quanto uma catedral ou uma pirâmide.

O que é concretamente protegido na praça

O reconhecimento da UNESCO se refere ao “espaço cultural da praça Jemaa el-Fna”, ou seja, ao conjunto das práticas que compõem a sua vida cotidiana. Concretamente, isso inclui:

  • Os contadores de histórias (hlaykia): o coração do reconhecimento, guardiões de uma tradição oral em árabe dialetal — epopeias, contos morais, lendas. É a prática mais ameaçada.
  • A halqa: a própria forma do círculo de espectadores em torno de um artista, modo de espetáculo popular secular.
  • Os músicos: gnaoua (música de transe), grupos berberes do Atlas, cantores e percussionistas.
  • Os saberes: tatuagem de hena, ervanaria e medicina tradicional, leitoras da sorte.
  • Os ofícios e as figuras da praça: aguadeiros (guerrab) com seus trajes, adestradores, acrobatas, arrancadores de dentes.
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O reconhecimento não endossa todas as práticas. Algumas, como os macacos presos em coleiras ou os encantadores de serpentes, levantam hoje sérias questões de bem-estar animal. Reconhecer uma tradição não obriga a aprovar cada um de seus aspectos: o debate ético continua aberto e legítimo.

Para saber mais sobre essas figuras, o nosso artigo dedicado aos contadores de histórias da Jemaa el-Fna (hlaykia) detalha essa tradição oral e o seu futuro incerto.

As ameaças que ainda pesam sobre a praça

O reconhecimento não é uma garantia eterna. A própria UNESCO identifica vários riscos bem reais:

  • A pressão urbana e imobiliária: especulação imobiliária, expansão das infraestruturas viárias e projetos urbanísticos em torno da praça.
  • A aculturação pelo turismo de massa: de tanto se exibir para os visitantes, a praça corre o risco de congelar suas tradições em clichês folclóricos, esvaziados de sentido.
  • O desaparecimento dos contadores de histórias: é a ameaça mais grave. Os grandes hlaykia envelhecem, as novas gerações se voltam para outras profissões e a transmissão oral perde fôlego. Em algumas noites, resta apenas um punhado de contadores onde antes havia dezenas.
  • A concorrência das telas e das novas atrações: música amplificada, barracas comerciais e abordagens turísticas vão ocupando o espaço das artes tradicionais.

A praça Jemaa el-Fna movimentada, patrimônio vivo ameaçado

Diante disso, existem iniciativas: documentação dos contos, apoio aos artistas, criação de um museu do patrimônio imaterial em Marrakech. Mas o maior aliado da praça continua sendo o público — porque uma halqa só existe enquanto houver espectadores para formar o círculo. Ao parar para ouvir um contador de histórias e deixar alguns dirhams, você contribui, na sua escala, para a sobrevivência desse patrimônio.

Como visitar a praça respeitando o seu patrimônio

Entender o valor UNESCO da Jemaa el-Fna muda a forma de vivê-la. Alguns reflexos simples:

  • Reserve um tempo para parar diante de uma halqa, mesmo sem entender árabe: a teatralidade dispensa tradução.
  • Remunere os artistas: uma pequena moeda no chapéu ou no tapete é o aluguel da sua arte e o combustível da transmissão.
  • Prefira as tradições vivas (contadores de histórias, músicos, ervanários) às atrações com animais.
  • Fotografe com respeito e peça a permissão dos artistas, que muitas vezes solicitam uma pequena contribuição.

Para preparar a sua visita, consulte o nosso guia completo sobre a história da praça Jemaa el-Fna e o nosso panorama de o que ver e fazer na praça.

Perguntas frequentes

Em que ano a Jemaa el-Fna foi reconhecida pela UNESCO?

A praça foi proclamada em 2001 “obra-prima do patrimônio oral e imaterial da humanidade” e depois inscrita em 2008 na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Foi o primeiro lugar a receber esse título inaugural, em 2001.

Qual é a diferença entre patrimônio material e imaterial?

O patrimônio material reúne os bens físicos (monumentos, sítios, objetos). O patrimônio imaterial reúne as práticas vivas: tradições orais, músicas, rituais, saberes. A Jemaa el-Fna é reconhecida pelo seu patrimônio imaterial, ou seja, por seus contadores de histórias, músicos e saberes, e não por seus edifícios.

Quem foi Juan Goytisolo e qual foi o seu papel?

Juan Goytisolo foi um escritor espanhol radicado em Marrakech. Grande defensor dos contadores de histórias da praça, fez campanha contra os projetos de urbanização e levou à UNESCO a ideia de uma proteção internacional. Sua ação foi decisiva para a proclamação de 2001.

O que exatamente é protegido na Jemaa el-Fna?

A UNESCO protege o “espaço cultural” da praça: os contadores de histórias (hlaykia), a halqa (círculo de espectadores), os músicos gnaoua e berberes, a ervanaria, a medicina tradicional e saberes como a tatuagem de hena.

O reconhecimento da UNESCO é definitivo?

Não. O reconhecimento busca conscientizar e incentivar a salvaguarda, mas as ameaças continuam: pressão imobiliária, turismo de massa e, sobretudo, o desaparecimento progressivo dos contadores de histórias. A vitalidade da praça depende da transmissão e do interesse do público.

Onde encontrar as informações oficiais da UNESCO?

A ficha oficial pode ser consultada no site do patrimônio imaterial da UNESCO: O espaço cultural da praça Jemaa el-Fna. Um resumo também está disponível na página Praça Jemaa el-Fna da Wikipédia.